Ato I - Dúvida
Após a labuta, observa a fria noite morrendo para nascer o outro.
Oh, noite que vás, afugentada pela luz que hei de cortar, carregue com tua sombra o meu pesar, que apedreja a cela que me abriga. Vê alma minha crida em pó e não mais vida, ferida, espremida, gemida. Cantes canções esquecidas para almejar a sina já jazida. Corres sim, depressa, antes que sinta tua fresta machucada pelo que resta. Mas antes, vinde a mim, tão gélida escuridão, e tome os meus presságios em tua corda, sustentada pela última navalha a romper. E se por infortúnio, assim não fazes, onde hei de ir, se os teus rastros não enxergo? Deixarás na sarjeta eu que a tanto te contemplara sem perceber o feitiço que me lançara? Se minhas palavras perdem-se no entendimento, e em tuas vestes o teu detrimento, quem és tu senão o vulto e o tormento? A dúvida me alcançara sem demora, golpeando a faculdade e a religião. Agora, não recordo onde moro, apenas fito tuas vestes enfraquecem, e meus temores fortalecem na dúvida que me prendera na empresa de ontem. Que soe a trombeta e que suas ondas irrompam o teu céu até Calisto, que ensurdeça as frontes dos inimigos e que converta suas fortalezas em cinzas. O fim da minha espera não tarda, o fim do teu expediente sim. Tua negritude mistura-se com a juventude, fazendo fluir entre eles uma passagem quase ilusória. Então, nesta aberta fenda, acordo recostado em teu cajado - me fizeste hábil e me colocara nesta locação. Porém, agora, órfão de tua família, quem sou eu senão tua cria e visão? O nascimento está contemplado, enfim, saio da lucidez, para acompanhar em tua mudez.
(Peterson Foka)
2.9.03
Postado por Foka às 9/02/2003 02:23:00 AM
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