Eu posso usar uma confissão para expelir o oportunismo. Eu posso manipular uma decisão para desfazer a avidez. Eu posso contradizer a exatidão para arruinar a gratidão. Eu posso, enfim, perpetuar a angustia para aquele que afronta a própria sorte. Sorte esta lançada a uma hegemonia proveitosa, cuja esperteza é invisível a belos e tolos.
Diante a um ângulo que assombra a crueldade, não posso mais que ninguém, porém sei mais que alguém. Sei que o torvelinho do pensamento infantil adquiriu, através de uma traição, uma chama para o futuro próspero. Sei que a imaturidade tentou roubar-me a forma, fazendo-se amigo, quando na verdade era um rebento embevecido. Sei que tal gratidão oculta, em sua mais fina condição, um riso irônico, uma tentativa de causar submissão. Quando o tempo para, me pergunto como pode ser tão ávido a ponto de julgar-se superior a própria crença. Crença essa que, erroneamente, levará este e todo o rebanho para a uma fétida surpresa. A soberba deve estar alegremente flutuando pelo invisível, pois não ao acaso, o vento frio corta a singularidade e traduz um certo ceticismo em um eloqüente desvio.
Do mesmo lado da ponte, outrem, cuja aceitação ao fracasso chega a ser estapafúrdica, pinta a calçada na mesma tonalidade. Contorna um traçado que, subitamente, se estreita para a miragem de uma promessa tola. Eles acreditam. Eles seguem. Nesta linha, há algo que, gradativamente, alimenta meu ego negro - a certeza de que o início está fadado ao fim. E não distante. Pois estou do outro lado da ponte. Estou vendo.
6.8.05
Postado por Foka às 8/06/2005 01:11:00 PM
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