Aqueles séquitos nefastos tramam as próprias ambições, e eu, pedra sorrateira, sou um guarda-chuva em dia ensolarado. Pensam eles, seres cegos pelas riquezas envenenadas, que sou como um fantoche que se usa e depois joga longe. Não tenho irmãos, não tenho amigos, sou eu e minha própria imagem sem cor. No entanto, não há motivo para ser envolvido pela ignorância e fraqueza. Vou fugir deste reino, ao monte norte irei, e talvez lá faça uma fogueira. Quando notarem a fumaça se desfazendo no ar, já estarei milhas avante, em alguma desolada terra. Que façam suas próprias propinas e traições, como quem brinca de vida na própria morte. Esperarei a voz do maltrapilho soar sem dor e então voltarei trazendo maus agouros para estes seres infames. As más notícias se alastrarão como epidemia de doença incurável, fazendo cairem no oco do mundo tomados pelo medo. Verão que suas caras vestes, admiráveis jóias, intocáveis jardins, invejosos castelos valem tanto quando a alergia que toca meu pé. Estes ingratos sentirão o gosto do próprio cuspo que lançaram no prato dos escravos, saborearão a dor das chibatadas desferidas, não durmirão em dia de caos. Sem suas mordomias ao alcance, deixarão suas cinzas se misturarem com as areias do deserto, sem vínculos a serem lembrados - será quando estarei pronto para voltar e aquecer-me na fogueira.
12.12.03
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