Sou um fantasma novamente. Vagueando pelas sombras da cidade, procuro refugio em becos obscuros. Afasto-me daquilo que assim me fez, condenado a atravessar as paredes sem machucar-me, andar meio as pessoas sem notarem-me, cair em uma poça e não molhar-me. Sou uma incógnita que coexiste entre mundos dispersos e intocáveis, flutuando em épocas que não deveriam existir. Viajo para o sentido mais profundo, onde só o eterno pode chegar, e, no entanto, ao menos posso tocar. Fora em um desses caminhos de ida e vinda, que percebi vidas enxergando-me. Viam-me nitidamente, porem jamais escutavam minha voz. Talvez porque não fora permitido emiti-la. Tentava então lançar palavras com gestos, porém não tinha o resultado desejado: apenas uma estátua, e nada poderia fazer. Minha inconformidade superou minhas forças e fez-me decidir fugir. Parti para onde a chuva não poderia molhar, nem o sol iluminar, tão pouco a vida enxergar. É neste submundo que preencho agora, um habitat repugnante onde a matéria esvaiu. O único som que ouço são os dos meus sentimentos sendo sufocados pela descrença. Por mais que os pressiono, não há como fazê-los exaurir. A infinidade desta fonte traz-me a dúvida de um imperdoável erro. Por um instante, hesito em fazer o caminho de volta, mas obviamente já esquecera. Resta-me vegetar neste limbo como algo imaturo que jamais deveria existir. O céu, a terra, o fogo, as águas, a vida, o amor... são somente saudades irrevogáveis. Eu, um fantasma perdido nos postigos.
12.8.03
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