23.4.03

Minhas veias dilatam-se quando ouço uma vogal; o sangue bombardeia minha cabeça quando a palavra se forma; a lucidez deixa de existir quando a frase penetra em minha mente - desfaço-me em agudos traços nesta imaginação de risos incoerentes. Esta voz, que me persegue por incontáveis anos, ecoa quando há silêncio, pronunciando que sempre hei de lembrar do dia em que fracassei: permiti que a explicação do meu presente voasse com o seu ninhal. Meu orgulho traira-me quando me deixei de avisar que você esquecera aberta a porta do meu âmago. Fui tolo ao pensar que conseguiria quebrar esta faca que me fere a cada passo que dou. Desde àquela última chuva do inverno, prossigo tortuosamente em busca da chave deste amaldiçoado portão, mas sou incapaz de fazê-lo com estes sons me atormentando. Estas pragas sussurram em minha consciência deixando-me tão confuso... tão perdido... Todas as rosas achadas neste período são pretas e brancas. Desespero-me em saber que você também levara as cores. Por mais que eu persista, o resultado será sempre o mesmo: a opaca sensação de vazio. Prefiro sentir isto flutuando no nada do espaço do que acorrentado nesta prisão de perdidos. Aonde mais irei? Não há mais novos caminhos para quem os construiu. Não há mais luz para quem as apagou. Haverá esperança para quem a esqueceu?

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