O OCEANO
(Childe Harold’s Pilgrimage, Canto IV)
Rola, Oceano profundo e azul sombrio, rola!
Caminham dez mil frotas sobre ti, em vão;
De ruínas o homem marca a terra, mas se evola
Na praia o seu domínio. Na úmida extensão
Só tu causas naufrágios; não, da destruição
Feita pelo homem sombra alguma se mantém,
Exceto se, gosta de chuva, ele também
Se afunda a borbulhar com seu gemido,
Sem féretro, sem túmulo, desconhecido.
Do passo do homem não há traço em teus caminhos,
Nem são presa teus campos. Ergueste e o sacodes
De ti; desprezas os poderes tão mesquinhos
Que usa para assolar a terra, já que podes
De teu seio atirá-lo aos céus; assim lanças
Tremendo e uivando em teus borrifos escarninhos
Rumo a seus deuses – nos quais firma as esperanças
De achar um porto ou angra próxima, talvez –
E o devolves à terra – jaza aí, de vez.
Os armamentos que fulminam as muralhas
Da cidades de pedra – e tremem as nações
Ante eles, como os reis em suas capitais - ,
Os leviatãs de roble, oujas proporções
Levam o seu criador de barro a se apontar
Como Senhor do Oceano e árbitro das batalhas,
Fudem-se todos nessas ondas tão fatais
Para a orgulhosa Armada ou para Trafalgar.
Tuas bordas são reinos, mas o tempo os traga:
Grécia, Roma, Cartago, Assíria, onde é que estão?
Quando outrora eram livres tu as devastavas,
E tiranos copiaram-te a partir de então;
Manda o estrangeiro em praias rudes ou escravas;
Reinos secaram-se em desertos nesse espaço,
Mas tu não mudas, salvo no florear da vaga;
Em tua fronte azul o tempo não põe traço;
Como és agora, viu-te a aurora da criação.
Tu, espelho glorioso, onde no temporal
Reflete sua imagem Deus onipotente;
Calmo ou convulso, quando há brisa ou vendaval,
Quer a gelar o pólo, quer em clima ardente
A ondear sombrio, - tu és sublime e sem final,
Cópia da eternidade, trono do Invisível;
Os monstros do abismo nascem do teu lodo;
Todas as zonas te obedecem: porque és todo
Insondável, sozinho avanças, és terrível.
Amei-te, Oceano! Em meus fulguedos juvenis
Ir levado em teu peito, como tua espuma,
Era um prazer; desde meus tempos infantis
Divertir-me com as ondas dava-me alegria;
Quando, porém, ao refrescar-se o mar, alguma
De tuas vagas de causar pavor se erguia,
Sendo eu teu filho esse pavor me seduzia
E era agradável: nessas ondas eu confiava
E, como agora, a tua juba eu alisava.
12.11.02
Postado por Foka às 11/12/2002 01:28:00 PM
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